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Índios de SP dizem que foram prejudicados pelo Rodoanel


As terras que serão concedidas às três comunidades guarani mbyá da
capital paulista pela Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) como
compensação dos impactos da construção do Rodoanel Mário Covas são
apenas uma solução temporária para os problemas enfrentados pelas
comunidades. A avaliação é das lideranças indígenas das aldeias.

A Dersa concederá cerca de 300 hectares em terras, no valor aproximado
de R$ 6 milhões divididos em duas áreas. Uma das propriedades ficará
com a comunidade do Jaraguá (300 habitantes), na zona norte de São
Paulo, e outra beneficiará as aldeias Krukutu (300 habitantes) e da
Barragem (900 habitantes), situadas em Parelheiros, na zona sul da
capital.

Para a liderança indígena da aldeia Krukutu, Marcos Tupã, existe uma
"pressão muito forte" sobre a comunidade devido à tendência de
crescimento da região. Ele acredita que transferir parte da população
para o novo território pode não ser uma solução definitiva para os
problemas da falta de espaço e da ocupação em volta da aldeia.

As terras indígenas da Barragem e Krukutu têm 26 hectares cada uma.
Tupã acredita que seria necessário uma quantidade de terras ainda
maior do que a oferecida pela Dersa para que as comunidades tivessem a
área necessária para manter o modo de vida tradicional.

Esse novo espaço poderá garantir a sobrevivência dos guarani, segundo
o administrador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em
Bauru, Amaury Vieira. "Diante da situação que eles têm hoje em São
Paulo, as três aldeias, uma área de terra muito pequena e a
dificuldade de ampliar isso, qualquer coisa que aumente esse
território indígena é importante e necessário".

Um dos líderes do Jaraguá, Pedro Luís Mecena, acredita que a área é
boa, mas teme pelo futuro da comunidade. "Hoje é grande, mas daqui a
dez anos pode ser pequena", avaliou. Ele defende que haja um
planejamento para longo prazo com o objetivo de evitar nova compressão
da aldeia pela expansão urbana.

O antropólogo Daniel Pierri, que trabalha desde 2005 com os guarani
paulistanos, explicou que toda a etnia tem uma ligação forte entre si,
por isso é importante resolver o problema de todos os índios. "A longo
prazo, a única solução para um vida decente, digna para as comunidades
guarani é que todas as terras que precisam ser identificadas e
demarcadas realmente sejam", afirmou.

Quando foi demarcada, em 1987, havia apenas uma família na terra
indígena do Jaraguá, hoje são aproximadamente 80 ocupando os mesmos
1,7 hectare. Segundo Mecena, após a construção do Rodoanel e da
Rodovia dos Bandeirantes houve um aumento da ocupação em volta da
comunidade, que acabou cercada por residências e empresas. O líder
indígena afirma que esse adensamento atrapalha o dia a dia dos índios
e interfere na preservação dos costumes tradicionais.

Marcos Tupã teme que um processo semelhante ocorra com as comunidades
de Parelheiros devido à construção do trecho sul do Rodoanel. A obra
deverá passar a cerca de oito quilômetros da aldeia, na zona sul de
São Paulo. "A tendência é crescer a população no entorno da aldeia,
haver ocupação de terras e especulação imobiliária", afirmou

As comunidades do trecho sul ficam em uma região menos povoada que a
do Jaraguá, a cerca de 30 quilômetros ao sul do Autódromo Municipal de
Interlagos. No entanto, de acordo com o gerente de Gestão Ambiental da
Dersa, já existe uma ocupação "consolidada" de 70 mil pessoas entre as
aldeias Krukutu e Barragem e o local onde será construído o Rodoanel.

Com base nisso, ele nega que haverá impactos diretos do
empreendimento. "Os nossos estudos não apontaram nenhum tipo de
impacto sobre as aldeias da zona sul por conta do Rodoanel", garantiu.

Para a socióloga Maria Bernadette Franceschini, que trabalhou no
estudo etnoambiental para implementação do empreendimento, os impactos
sobre as comunidades podem ser pequenos se o projeto original de não
haver acessos ao Rodoanel pela região de Paralheiros for mantido.

Ela destaca, no entanto, a existências de pressões econômicas para a
abertura de acessos à rodovia na região, o que poderia atingir as
aldeias. "É difícil acreditar que o projeto original seja mantido. A
tendência é agravar os problemas que já existem e criar outros",
avaliou.

Apesar disso, Franceschini não acredita que a comunidades do Krukutu e
da Barragem sejam "engolidas" pela metrópole. Para ela, mesmo que eles
sejam envolvidos pela cidade, ali dentro os guarani continuam falando
a sua língua e praticando a própria religião.

 

Fonte: Agência Brasil