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Marcha das Margaridas alerta país para problemas e lutas das trabalhadoras camponesas e das florestas brasileirasFonte: Lamparinaurbana.blog.br
O movimento foi organizado pela CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura) com o apoio de 11 organizações feministas e sindicais brasileiras. Evento que a entidade define como “uma ação estratégica das mulheres do campo e da floresta para conquistar visibilidade, reconhecimento social e político e cidadania plena”. Realizada a cada quatro anos, a marcha chegou a sua quarta edição adotando o tema “Desenvolvimento Sustentável com Justiça, Autonomia, Liberdade e Igualdade”. No Primeiro dia de atividades (16/08), a programação incluiu dois painéis, um deles tratando do tema “Desenvolvimento Sustentável, Com Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade Com Foco em Biodiversidade, e Democratização dos Recursos Naturais; Terra, Água e Agronegócio; Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional; Autonomia Econômica, Trabalho e Renda”. O segundo painel teve como tema Saúde Pública e Direitos Reprodutivos; Educação Não Sexista, Sexualidade e Violência, Democracia, Poder e Participação Política. Durante os debates, houve críticas ao projeto Rede Cegonha, anunciado pelo governo Dilma Rousseff e considerado um retrocesso nas reivindicações históricas das mulheres. Denúncias sobre desvios de verbas do SUS (Sistema Único de Saúde) nos municípios e a necessidade de maior fiscalização e combate à corrupção no setor foram outra preocupação manifestada pelas participantes. Essas e outras inquietações das trabalhadoras do campo e das florestas também marcaram a caminhada do dia 17. Faixas e cartazes pediam punição para os assassinatos de ambientalistas de Nova Ipixuna, no Pará, educação de qualidade e não sexista no campo, intensificação das políticas de combate à violência contra mulheres e linhas espaciais de crédito para a agricultura familiar. Críticas aos produtos trangênicos.ao uso de agrotóxicos nas lavouras, à pressão dos latifundiários e do agronegócio sobre os trabalhadores rurais e aos pequenos produtores, que provocam a expulsão das populações rurais pobres, também foram alvo de protestos. Alas de organizações feministas solidárias ao movimento também marcaram presença ironizando a imagem da mulher nos meios de comunicação e os padrões de beleza por eles impostos. “Não sou modelo de passarela/ Minha vida não é tema de novela”, cantava um grupo de mulheres que compunham o bloco da região sudeste, enquanto outras manifestantes do centroeste advertiam: “Nosso direito vem/ Nosso Direito vem/ Se não vem nosso direito/ O Brasil perde também”. Em outra ala, uma faixa denunciava as consequências nefastas da exploração capitalista, do preconceito racial e do desrespeito à liberdade sexual. “Capitalismo, racismo e homofobia matam”. É melhor morrer na luta, do que de fome… Na abertura política da Marcha, na tarde do dia 16, houve homenagem especial a Elizabete Teixeira, viúva de João Pedro Teixeira, assassinado em 1962, quando liderava a Liga Camponesa de Sapé na Paraíba. Hoje aos 86 anos, Elizabete lembrou as perseguições políticas que sofreu por dar continuidade à luta do marido, sendo presa por várias vezes até refugiar-se no Rio Grande do Norte, onde permaneceu por 20 anos, obrigada a deixar para trás os filhos, dois dos quais acabaram mortos durante a ditadura militar. Elizabete é conterrânea de Margarida Alves, outra líder camponesa paraibana assassinada em 12 de agosto de1983. Primeira mulher a presidir, por 12 anos, o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadores Rurais, é o principal símbolo das lutas mulheres camponesas brasileiras e uma das referências de luta pelos direitos dos trabalhadores e femininos. É em homenagem a ela que a cada quatro anos é realizada a Marcha das Margaridas, hoje o maior evento de luta pelos direitos das mulheres no Brasil. Referência que as dirigentes faziam questão de lembrar nos caminhões de som que animavam a passeata: “Margarida, Margarida/ Nossa marcha tem seu nome/ É melhor morrer na luta/ Do que morrer de fome”. As organizadoras da marcha enfatizaram que este ano o evento deu-se em momento histórico singular para as mulheres, que pela primeira vez têm uma representante no cargo máximo do país: a presidenta Dilma Roussel, a quem as manifestantes, em sua maioria mobilizadas por organizações sociais simpáticas ao governo, entregaram pauta de reivindicações do movimento. Acompanhada da ministra de Políticas Públicas Para Mulheres, Irini Lopes, a chefe do Executivo federal compareceu ao encerramento da Marcha das Margaridas para entregar pessoalmente o caderno de respostas às reivindicações apresentadas. Usando um chapéu enfeitado que ganhou de uma das margaridas, Dilma adiantou algumas medidas que disse já terem sido atendidas pelo governo, como o apoio à agricultura familiar, fornecedora de produtos para a merenda escolar, mas salientou como mais importante a disposição de seu governo de manter o canal de diálogo aberto pelo governo Lula com os movimentos sociais, entre eles, os que tratam dos direitos das mulheres. O movimento, por sua vez, prometeu apoio à presidenta no combate à corrupção nos órgãos públicos e defendeu reforma política visando maior poder de decisão das mulheres e processos eleitorais não pautados pelo poder econômico. Código Florestal e MST, ausências sentidas A questão ambiental foi um dos focos centrais da Marcha das Margaridas, que tinha como um dos slogans “2011 motivos para lutar”. A falta de saneamento e abastecimento de água potável nas moradias de camponesas, ribeirinhas e trabalhadoras das florestas, a preservação das matas e dos mananciais do país foram fortemente ressaltos nos dois dias de evento. Os debates, no entanto, passaram ao largo de grandes temas nacionais espinhosos para o governo federal, mas diretamente relacionados ao setor, como as mudanças propostas ao Código Florestal, contra as quais se debatem ambientalistas, organizações de defesa dos direitos humanos e movimentos sociais diversos, além da denominada bancada ambientalista no Congresso. Segmentos estes que denunciam as conseqüências sociais e ambientais de tais alterações, que atendem aos interesses de grandes grupos econômicos nacionais e internacionais ligados ao agronegócio e latifúndios, usando como álibi as justas reivindicações dos pequenos produtores e da agricultura familiar, que na prática são quem responde por 70% da produção nacional de alimentos. A política de hidrelétrica, também combatida por organizações ambientalistas e comunidades indígenas e outros setores atingidos por essas obras, também foi tema subestimado durante o evento das margaridas e restritos a discursos isolados. O tema apareceu apenas em uma das falas durante o ato que encerrou a marcha do dia 17, numa referência à usina de Belo Monte, obra polêmica do governo federal que enfrenta forte resistência de setores do movimento socioambiental. Durante a marcha, notou-se também a ausência de representantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e outros segmentos organizados pela Via Campesina Brasil, composta também pelo Movimento das Mulheres Camponesas, Movimento dos Pequenos Agricultores e Movimento dos Atingidos por Barragens. A organização promete prolongar a presença dos camponeses em Brasília, prevendo mobilização específica com um grande Acampamento por Reforma Agrária entre os dias 22 e 26 de agosto. A ação faz parte da Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária que acontece em todo o Brasil no mesmo período, incluindo acampamentos, atos políticos e culturais na Capital Federal e nos 23 Estados onde os movimentos da Via Campesina estão organizados. |
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